A [destrutiva] cultura do herói

Um cenário conhecido: Quinta feira, véspera de feriado, 17h30. O estagiário concebe a brilhante ideia de subir um "negocinho" para produção sem teste, porque é coisa boba. O resultado não poderia ser outro: clientes ligando desesperados, chefes com raiva e dinheiro indo embora pelo ralo. É nessas horas que surge a figura do desenvolvedor experiente, faz tudo, que está na empresa desde sempre. Com cara de quem sabe o que está fazendo, passa horas a fio para descobrir o problema, o financeiro libera uma pizza para aqueles que ficam até tarde. O herói faz a correção e ganha um tapinha nas costas do chefe e dos companheiros de equipe. Mal sabe ele, e todos os envolvidos, que essa situação é a representação de um problema na cultura organizacional que, a médio prazo, destrói a produtividade e a evolução das equipes de desenvolvimento de software.

O perfil do Herói

A figura do herói reúne poderes quase divinos durante catástrofes. Geralmente é um desenvolvedor mais velho, que participou das principais decisões estruturais do projeto. Sobreviveu à mudanças de chefes, dilatações e cortes na equipe e outras adaptações organizacionais. Por isso, é o principal especialista das tecnologias que a empresa utiliza. Sua principal força surge na hora do "incêndio": prazos apertados ou tarefas que requerem atenção imediata (geralmente bugfixes que custam muito). Outros sintomas comuns são:

  • Nunca ter tempo para investir em capacitação
  • Poder total de veto a inovação
  • Estagnação nas atribuições atuais
  • Monopólio sobre diversas responsabilidades
  • Prazer com a posição de "indispensável"

Nas próximas seções esses sintomas são discutidos com mais profundidade.

Efeitos para o herói

É razoável dizer que o maior prejudicado com essa cultura é o próprio herói. Isso porque as responsabilidades o sufocam e impedem qualquer tipo de crescimento. Há estagnação de cargo porque ele é indispensável demais para uma função gerencial, enquanto as atribuições de "apagar incêndio" consomem tempo precioso, que poderia ser utilizado em capacitação ou em inovação. Por isso, o prazer em se sentir indispensável com o tempo vira frustração, pois será impossível crescer profissionalmente.

Efeitos para a equipe

O mais devastador dos efeitos é a estagnação tecnológica. Isso porque o desenvolvedor de maior reputação da equipe estará sem tempo para analisar qualquer inovação, ao mesmo tempo que sentirá seu monopólio ameaçado. Ou seja, as chances de veto são grandes. Isso rapidamente desmotiva novos membros com ideias frescas. Além disso, o conhecimento (seja do processo, seja da tecnologia) fica preso no heroi, e outros membros da equipe encontram mais uma barreira para crescer.

Como combater essa cultura

Como qualquer cultura, a mudança não é instantânea. Mas começa de cima para baixo, onde gestores capazes percebem a formação desta estrutura e agem para evitar. As principais medidas são:

  • Democratização e pluralização das decisões e discussões técnicas
  • Incentivo a treinamentos internos, de membros da equipe para a própria equipe.
  • Buscar validação e explicação de todas as decisões tomadas pelas equipes, especialmente as que pareceram monocráticas.
  • Um membro da equipe é um ativo da empresa. Capacitação é um investimento necessário, não um benefício.
  • Tarefas manuais, noites em claro e hotfixes devem ser considerados como problemas. Explicações e soluções definitivas devem ser cobradas, pois são muito mais importantes que qualquer solução paliativa ou contorno encontrados no meio da madrugada.

Conclusão

A figura do herói emerge naturalmente em equipes com processos de desenvolvimento frágeis, mal definidos e pessoais. Contudo, a médio prazo, se torna algo nocivo para todos envolvidos - a maior vítima é o próprio "Cristo". Gestores qualificados devem identificar e coibir esse tipo de prática, em nome da sanidade e produtividade da equipe.

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